domingo, 17 de abril de 2011

PEDREIRAS, quando as águas baixarem...

Casas Alagadas Pelo Rio Mearim

Quando a lua brilhava intensamente sobre a terra, e o clarão dessa luz desenhava sinais de esperança no céu, guiando nossos passos nas noites escuras, à cidade de Pedreiras parecia que queria cochilar ao som de “Seu Moço Vou Pegar Minha Canoa e Descer o Mearim.” Em poucos segundos naquela calma e morna madrugada, eis que repentinamente, os olhos do Ribeirinho eram lagos de água ao som da tempestade rouca que subitamente caía, onde os sonhos se desmoronavam debaixo daquele pé d’água, daquele do toró que matava a solidão, e estando as nuvens de bexigas cheias derramaram um aguaceiro violento sobre a terra do ‘Pisa na Fulô’, tudo sem tempo de avisar. Em pouco tempo as águas cálidas e barrentas beijavam os rebocos das casas que se espalhavam pelas avenidas, ruas e quintais da cidade que se transformou num mar vermelho de telhados.
O Ribeirinho e a mulher com três bruguelim a tiracolo, com uma trouxa de roupas, e o restante dos pertences dentro de um bisaco, navegavam na canoa que deslizava por um rio de palavras em versos: Mearim, Mearim / Que alivia tantas mágoas / Sinto a minha alma tocar o céu / No instante que os meus pés / Tocam as tuas águas.”
Este na esperança de nuvens claras e de dias melhores, rezando para que não viessem mais chuvas, e nas marcas do seu rosto desfigurado pelo desgosto desmoronou-se uma lágrima de sonhos perdidos no correr das águas solitárias lavadas pela emoção. Porém... Quando as águas baixarem / O teu rio de novo no leito / Leva da gente / A enchente nos olhos de abril / Quando as águas baixarem / Essa dor tão amarga e crescente / Vai na corrente / O sorriso carente das pedras / Quando as águas baixarem / Reclamando das coisas perdidas / Vai no olhar / Um afago febril de alegria.
 A vida de um rio não é só a água que passa. É a vida num todo que se compõe, mas infelizmente para essa sofrida família tudo vai ficar no mesmo, e continuará perdida, à deriva, à procura do bote da salvação, ou quem sabe à procura do colo de poeta, que é como uma planta que se mexe penteada pela brisa do vento. “Vento que beija os teus olhos / Que te faz pensar em mim / Vento que beija a saudade / E que me faz feliz assim.”
Paul Getty S Nascimento
APL – Academia Pedreirense de Letras

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