segunda-feira, 24 de março de 2014

OLHO POR OLHO DENTE POR DENTE? POR ALLAN ROBERTO

Desde junho do ano passado o país passa por um clima de comoção social que iniciou com protestos isolados contra o aumento de passagens em ônibus urbanos e se disseminou por todo o país num movimento semi-revolucionário com uma pauta enorme de reivindicações, que no fundo exige basicamente justiça social e seriedade no trato da coisa pública pelos gestores eleitos e/ou indicados/nomeados para tal. Das passeatas e manifestações de ruas pacíficas e legítimas, desaguamos nos black blocks e rolezinhos. Da seriedade das manifestações iniciais descambou-se para o vandalismo puro e simples.

Como o clamor das ruas não foi plenamente entendido pelos nossos governantes, especialmente por nossa chefa máxima, a intolerância tomou conta paulatinamente de grande parte de nossa população pelo fato da ausência de resultados imediatos das reivindicações. Um clima de guerra civil toma conta do país. E o país vive uma crise institucional, praticamente.

Nesse bojo há algo que muito me preocupa, que é o fato do justiçamento, isto é, da população, por não confiar nas providências e poderes do Estado, assumir a responsabilidade de fazer justiça com as próprias mãos. Situação extremamente perigosa. De tanto presenciarmos e sofrermos barbaridades, desesperados, estamos pensando em nos tornar todos uns bárbaros. Esse é o maior risco.

Mas será se essa postura é correta e eficaz?

A Bíblia diz em Mateus 24:12 : “E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará”. Já nosso grande Ruy Barbosa dizia no início de 1900 que: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. E poderíamos completar: “e a querer fazer da força e da violência a solução dos males que o ameaça e angustia”.

Permeiam os noticiários fatos de justiçamentos e linchamentos. Pessoas defendendo nas redes sociais a morte e o espancamento de delinqüentes, inclusive menores de idade. Aqui em nossa pequena Pedreiras isso já ocorre. Não. Não acredito que seja fazendo justiça com as próprias mãos que resolveremos o problema da criminalidade em nosso país. É triste e deprimente presenciar o estado marginal parecer dominar o Estado oficial. Mas a violência só leva a mais violência. A abordagem adequada para a transformação é o amor, a educação, a formação, a informação, a consolidação de valores sociais, pessoais, espirituais e morais retos e inclusivos. Precisamos é de mais inclusão social. Nossas instituições é que estão fracas e não conseguem mais dar resposta às demandas sociais. O problema é sociologicamente mais profundo e complexo do que um pensamento superficial de revolta consegue entender.

E o que percebo mais é que a intolerância é mais com a marginalidade pobre. Defendem a morte de pobres e são tolerantes com os bandidos ricos. Pois os criminosos que circulam com bom trânsito social e detêm algum poder econômico que os destacam socialmente são até bajulados e adulados por esses que defendem o justiçamento de marginais das periferias. O jargão “bandido bom é bandido morto” só se aplica ao bandido pobre. Essa é a grande verdade.

Do que dizer do pior tipo de bandido que é aquele que “mata com a caneta” desviando milhões de reais de recursos públicos da saúde, da educação e do saneamento básico, e que faz vítimas aos milhares nesse país? Estes estão em gabinetes refrigerados, andam em bons carrões, comem em bons restaurantes e freqüentam excelentes lounges. Dentro do restaurante que um desses almoça, alguns o adulam, mesmo sabendo ser ele um grande ladrão, prontos para defender a morte do flanelinha que lá fora vigia o carro se esse roubar seu celular. Convivem placidamente com componentes de máfias de roubos de carros, cargas, cartões do INSS, golpes cibernéticos e grandes traficantes de drogas. Hipocrisia!

Trabalhei 02 anos num presídio. Nunca vi lá dentro um preso de classe média alta ou um rico. Num país sem justiça social como o nosso, pena de morte só matará pobres e criminalizar menores só condenará delinqüentes da periferia. Nesse país morrem mais crianças por infestação de lombrigas do que de AIDS. Absurdo! E onde existe pena de morte e e criminalização do menor delinqüente, as estatísticas demonstram que isso não diminuiu a criminalidade.Temos que entender que todos nós somos responsáveis por isso. E nossos pequenos delitos contribuem para esse grande caos quando subornamos o guarda para dirigir sem habilitação, quando compramos um carro FINAN ou um CD pirata, quando dirigimos embriagados, quando estacionamos em cima da faixa de pedestre, quando sonegamos impostos, quando ultrapassamos o sinal vermelho, quando compramos o diploma de segundo grau ou a vaga do filho na faculdade, quando votamos em pessoas sabidamente delinqüentes da política etc.

Não defendo o crime nem o criminoso. E acredito que não devemos amar o pecado, mas temos a obrigação de amar o pecador. Assim Cristo ensinou. E me indigno com católicos de terço na mão e pentecostais falando em línguas estranhas defendendo o ódio e a violência. Quanto a isso a Bíblia diz em Provérbios 17:13: “Quanto àquele que paga o bem com o mal, não se apartará o mal da sua casa”. E em Romanos 8:38-39 Paulo afirma: “Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir. Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra coisa nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor”. Também em Romanos 12:9, ele também diz: “Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem”. Se nós cristãos devemos imitar a Cristo, e Cristo nos ensina a amar, porque nós somos incapazes de fazê-lo.

Cristo ensina a suportar, acolher e amar ao próximo em seu erro e dificuldade. E se Deus que é Deus ama o marginal, quem somos nós meros humanos cheios de erros e falhas também para sair por aí condenando? Já dizia Mário Ottoboni que “todo homem é maior que seu erro”. Portanto, ninguém é irrecuperável. O apóstolo Paulo tinha como hobby matar cristãos; depois passou a salvá-los.

E não pensem que é porque ninguém nunca me roubou, nunca matou um familiar meu ou nunca estuprou uma filha minha que digo isso. Não! Eu falo assim porque vivo e acredito assim!!!

Como dizia nosso velho e inesquecível Mahatma Gandhi: “de olho por olho e dente por dente, o mundo terminará cego e banguela...” Acredito nisso!

Allan Roberto Costa Silva, médico, ex-Vereador-Presidente da Câmara Municipal de Pedreiras, membro da Academia Pedreirense de Letras-APL e da Associação dos Poetas e Escritores de Pedreiras-APOESP. E-mails: arcs.rob@hotmail.com ou allanrcs@bol.com.br

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